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Penumbra Solidão

Sinopse

Como posso ser poeta se o tempo

Necessário ao exercício de mi'a arte

Não o tenho - faz-se sempre partilhado

C'os labores que a mim são exigidos?

 

Quando a musa bela chega a visitar-me,

Inspirando-me o mais perfeito verso,

Cesso a escrita e com ela cessa o engenho.

Magoada, leva a minha inspiração.

 

Os poetas de outrora (penso eu),

Que as mais belas poesias redigiram,

Deixariam porventura seus ofícios

E à cotidiana ação se entregariam?

 

Posso eu submeter da arte as Musas

Ao intervalo das mi'as muitas ações,

Obrigando-as a servirem-me apenas

No cansaço, quando cessa-me o labor?

 

Tantas vezes companheiras se fizeram,

Junto a mim permanecendo todo o dia,

Ao ouvido me soprando as palavras

Tão perfeitas, que unidas eram versos.

 

Sem poder eternizá-las no papel -

Suave brisa - dissiparam-se no ar

P'ra - quem sabe? - outro poeta as ouvirem

E colher o que eu não pude atentar.

 

Dedicar-se unicamente à sua arte

Deveria o que tem alma de artista,

Para o mundo enriquecer com a Beleza,

Que é centelha da divina Criação.

 

E enquanto o poeta - e todo artista -

É envolvido pelo turbilhão do mundo,

Toda a humanidade aos poucos se empobrece

Pelas obras que a arte não criou.

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